A DIFÍCIL ESCALADA
"Ao estrangeiro não maltratarás,
nem o oprimirás;
pois vós fostes estrangeiros
na terra do Egito" (Êxodo 22.21).
A compreensão baseada na experiência
é extraordinária fonte de compaixão.
Entendemos e aceitamos
mais aquilo que já experimentamos.
Não poderia ser difícil aos israelitas
simpatizarem com os estrangeiros
que viviam entre eles, porque por vários séculos
eles foram também estrangeiros no Egito.
Certamente que muitos de nós
jamais estivemos colocados em tal condição,
porém, ainda assim entendemos
que os estrangeiros sofrem
ao se radicarem em outros países.
Portanto, menosprezá-los em tais circunstâncias
é ser desumano.Entre as montanhas escondia-se
um pequeno povoado, onde vivia
um aglomerado de pessoas presas às suas tradições.
Viviam da extração do ferro.
De repente, a cidade se viu invadida
por pessoas estranhas,
que chegaram amontoadas
numa terceira classe de navio.
Eram estrangeiros e enfrentaram
uma má vontade geral contra eles.
Mas os donos das minas,
carecendo de mão-de-obra especializada,
os contrataram.Todavia, viviam à parte,
desde o adulto até a criança.
Ninguém lhes dirigia palavra e nem os visitava.
Houve entre os garotos
um concurso de papagaios (pipas),
e quando um garoto estrangeiro
quis orientar três colegas de classe,
chegaram outros meninos e, ao vê-lo
mostrando falhas graves no acabamento,
um deles falou:
- Não se misture com a gente,
ouviu, gringuinho? Procure sua turma...
Na escola, os professores procuravam
ser imparciais,mas os colegas faziam questão
de colocá-los às margens.
No Dia da Criança, o pessoal miúdo realizaria
um piquenique na cidade miniatura,
que ficava no alto da serra.
Não pagariam nada.
Tudo seria oferecido pela prefeitura.
Entretanto, os meninos estrangeiros
não foram convidados a participarem.
Três ônibus conduziram a criançada.
O dia estava quente.
Volume de nuvens!
Escureceu, fechou-se o céu.
Um teto baixo perigoso...
Só dois ônibus conseguiram retornar
porque uma forte tromba-dágua caiu
sobre a cidade mirim e o terceiro ônibus
cheio de crianças ficou isolado na serra.
Entre os estrangeiros havia alpinistas
que se ofereceram para ajudar,
e o prefeito, embora envergonhado
pelo seu gesto preconceituoso, não recusou.
E lá se foram eles, carregando seus equipamentos.
Untando os rostos para evitar rachaduras
pelo calor do sol e pelo vento,
começaram a difícil escalada.
Finalmente, chegaram ao alto da serra
e encontraram o ônibus com as crianças aflitas
e seus monitores nervosos.
Planejaram a volta
por outro caminho mais longo,
porém, mais seguro.
Os estrangeiros comandaram sabiamente
toda a operação de regresso
e as crianças chegaram felizes,
lançando-se sobre os pais
que os esperavam tensos e aflitos.
A partir dessa experiência,
naquele povoado deu-se o início
de uma vida nova para todos.
Agora deixou de haver ali os estrangeiros
tão relegados, porque todos se tornaram irmãos,
amigos e um só povo.
Ninguém mais os humilhava, mas, sim,
os respeitava, sensibilizados pela grandiosidade
de espírito que revelaram.
Paulo Barbosa
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